Título: Isso também vai passar
Autora: Milena Busquets
Editora: Companhia das Letras
ISBN: 9788535926873
Ano: 2016
Páginas: 152
Ano: 2016
Páginas: 152
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Sinopse:
Um imperador convoca sábios e pede uma frase que sirva a todas as situações possíveis. Depois de meses, eles aparecem com uma proposta: “Isso também vai passar”. Quando Blanca era pequena, sua mãe contou essa história para ajudá-la a superar a morte do pai, e então acrescentou: “A dor e o pesar passam, assim como a euforia e a felicidade. Após a morte da mãe, restam as memórias do que Blanca viveu ao lado de quem a trouxe à vida, e o desejo de completar sua existência convivendo com as amigas, os filhos e os homens importantes do passado. Durante um verão na mediterrânea Cadaqués, ela se esforça para encontrar um novo caminho na vida.
Resenha:
Adoro quando autores fogem do ponto comum. Explora-se tanto uma literatura claramente comercial, que sobram poucos livros que fogem de uma estrutura já batida. Isso também vai passar me ganhou exatamente fugir do estilo de trama com grandes reviravoltas, amores ardentes e impossíveis e criaturas inomináveis. O que temos nesse livro é a vida, pura e simplesmente. A vida em páginas, em palavras, em literatura.
Blanca, nossa protagonista, é uma mulher normal. Ela tem um filho e dois ex-maridos. Como qualquer pessoa comum, está acostumada com o fluxo da vida de ganhos e perdas. Porém, o que ela não esperava é que a perda de sua mãe fosse revirar tanto sua vida e suas emoções. Mesmo sabendo que aquele dia estava próximo de acontecer, ela não estava preparada. Então, após o enterro, ela desaba. Tenta manter a aparência de força, algo que também é naturalmente humano, mas, por dentro, ela está por um fio.
Diante desse cenário de dor, nostalgia e incertezas sobre qual caminho ela deve tomar, Blanca acaba por se decidir que irá passar parte do verão em Cadaqués. Ela acredita que alguns dias de paz podem ajudá-la a colocar a sua vida nos trilhos. Para tal, ela convoca suas amigas inseparáveis, seus dois ex-maridos – que continuam seus amigos – e o atual amante. Mochila nas costas e dores no coração, ela resolve tentar reconstruir a sua vida.
“Mas acho que você me amava, nem muito nem pouco, me amava e ponto final. Sempre achei que os que dizem “Eu te amo muito” na realidade te amam pouco e que talvez acrescentem o “muito”, que no caso significa “pouco”, por timidez ou por medo da contundência do “Eu te amo”, que é a única maneira verdadeiramente de dizer “Eu te amo”” (p. 8).
Partindo dessa premissa, Milena Busquets cria um texto altamente linear, mas também profundamente humano. Não há grandes reviravoltas típicas dos livros românticos. Ao contrário, há o sofrimento de alguém que perdeu a mãe; há também uma mulher real que gosta de conversar, beber e de sexo. Há toda uma naturalidade na obra que não encontramos na maioria dos romances, o que deixa o texto mais envolvente e mais próximo do leitor.
Além disso, o livro foca mais no autodescobrimento do que em ter uma estrutura com começo, meio e fim. O livro começa com um acontecimento aleatório, a morte da mãe da protagonista, e termina com outro acontecimento aleatório, o término de um fim de semana. Assim como a vida não tem uma estrutura rígida, o livro também não a possui. Isso pode incomodar alguns leitores, mas, para mim, funcionou perfeitamente. Aliás, acredito até que esse enredo focado nas dores e no conhecimento próprio faz muito mais sentido através de um relato solto, exatamente como aconteceu na obra.
Ademais, como muito bem definiu o Le Monde, o livro funciona como “o retrato de uma geração”. Através da obra, dá para ter uma ideia bem interessante da cultura espanhola e da forma de pensamento dos nascidos nos anos 60/70. Percebemos uma diferença substancial no agir, no falar e até no modo que encaram a liberdade. Para quem gosta de comparar culturas e gerações, é um prato cheio.
“Óscar é um firme defensor dos poderes curativos do sexo, um desses homens de temperamento vital e saúde vigorosa segundo os quais não há desgraça, desgosto ou decepção que o sexo não possa resolver. Está triste? Trepe. Com dor de cabeça? Trepe. Seu computador pifou? Trepe. Sua mãe morreu? Trepe. Às vezes funciona” (p. 14).
Quanto à parte física, também tenho apenas elogios. A capa está belíssima e consegue retratar bem o que a obra vai abarcar. A diagramação está simples, mas eficaz. As letras e espaçamento possuem tamanhos adequados. Além disso, temos uma boa tradução e revisão. Ou seja, tudo contribui para uma boa leitura.
Dessa forma, diante dos aspectos mencionados, é claro que indico Isso também vai passar. Provavelmente, ele não agradará todos os leitores, principalmente por causa de sua trama mais linear e sem uma estrutura rígida. Porém, certamente, ele vai satisfazer quem procura um enredo diferenciado e com uma protagonista sincera e aberta sobre seus sentimentos.